Miridae no Brasil • Contexto
Mesmo com o grande progresso alcançado nos estudos sobre os mirídeos desde o catálogo de Carvalho (1957–1960), ainda persistem amplas lacunas em taxonomia, sistemática, biologia e faunística, especialmente no que se refere à Região Neotropical (Ferreira, 1999).
Embora Carvalho tenha descrito inúmeros táxons em publicações científicas, a identificação dos Miridae da região neotropical ainda representa um grande desafio. Apesar dos avanços com chaves de gêneros neotropicais para Dicyphinae, Cylapinae e Bryocorinae, as subfamílias mais ricas em espécies ainda demandam revisões taxonômicas prévias para tornar viável a elaboração de novas chaves de identificação (Ferreira, 1999).
A taxonomia dos mirídeos no Brasil enfrenta dificuldades adicionais em razão da imensa diversidade de espécies contrastando com o número reduzido de especialistas, com a escassez de incentivos à formação de novos taxonomistas e com a carência de estudos aprofundados em várias regiões do país.
Um dos principais problemas para a identificação de espécies de mirídeos consiste na variabilidade intra e interespecífica de caracteres morfológicos. A grande diversidade de formas, tamanhos e comportamentos entre as espécies exige estudos detalhados, buscando primordialmente caracteres diagnósticos em estruturas das genitálias masculinas e femininas, além de coloração e morfologia externa.
Ferramentas essenciais para a taxonomia incluem a literatura especializada, as coleções entomológicas bem preservadas e catalogadas em instituições científicas, museus de história natural e universidades, assim como a ampliação contínua de seus acervos miridológicos.
A complexidade taxonômica dos mirídeos exige, portanto, um esforço contínuo e interdisciplinar que envolva o aprimoramento das técnicas de coleta, análise e catalogação, bem como investimentos em taxonomia morfológica, filogenia e tecnologias moleculares para oferecer um panorama mais preciso da biodiversidade de Miridae no Brasil.
Os mirídeos, conhecidos como “plant bugs” em inglês, pertencem a uma das 20 famílias mais diversas de insetos no mundo, sendo a maior dentro da ordem Hemiptera, com aproximadamente 11.139 espécies descritas.
O tamanho dos mirídeos oscila entre 1,5 mm, valor comum em espécies braquípteras de Bryocorinae, Orthotylinae e Phylinae, até pouco mais de 15 mm, como em certos Resteniini neotropicais da subfamília Mirinae. A maior parte das espécies apresenta entre 3 e 6 mm de comprimento, com corpo variando de alongado a oval, incluindo representantes mirmecomórficos.
Muitos mirídeos fitófagos exibem coloração vibrante, com vermelho, laranja e amarelo, frequentemente acompanhados por manchas e listras. Entretanto, a maioria apresenta tons mais discretos, como cinza, marrom ou preto, o que lhes confere excelente camuflagem no ambiente (Ferreira, 1999).
A família está distribuída em 44 tribos e ocorre nas principais regiões biogeográficas do planeta, com especial destaque para os trópicos e para ecossistemas mediterrâneos. Na região Neotropical, os mirídeos estão representados por 25 tribos, 561 gêneros e 3.429 espécies, correspondendo a cerca de 27% da miridofauna mundial.
Estima-se que, com estudos mais aprofundados na região Neotropical, a fauna de mirídeos possa alcançar cerca de 20.000 espécies. Em razão da pouca informação disponível sobre a bioecologia dos mirídeos tropicais, a história natural desse grupo ainda se fundamenta majoritariamente em espécies de regiões temperadas.
Estudos biogeográficos identificam centros de endemismo em uma grande variedade de habitats, refletindo a capacidade dessas espécies de se ajustarem a novas situações, desafios e mudanças, o que contribui para o êxito ecológico do grupo. Os mirídeos apresentam ainda grande potencial como bioindicadores de alterações ecológicas, sendo valiosos para ações de conservação e manejo ambiental.
As coletas de mirídeos têm sido tradicionalmente realizadas com o emprego de redes entomológicas de varredura e rede de batida (“beat net”), métodos amplamente utilizados para amostrar espécimes em diferentes estratos da vegetação.
A utilização de armadilhas luminosas do tipo “black-light”, pelo método de Ferreira & Martins (1982), favorece a coleta de espécies que ocupam ambientes menos acessíveis às redes, como as copas de árvores. Por isso, a conjugação entre esses métodos é recomendada para ampliar a representatividade das amostras.
O conhecimento sobre a fauna de Miridae no território brasileiro permanece fragmentado e carece de investigações mais profundas em todas as regiões. As maiores lacunas de amostragem concentram-se especialmente nas regiões Norte e Nordeste, evidenciando a necessidade de novos levantamentos nessas áreas.
Esse panorama evidencia o desequilíbrio do conhecimento taxonômico no país e reforça a importância de expandir inventários, coleções de referência e estudos sistemáticos em áreas das regiões brasileiras.
Os mirídeos possuem um impacto econômico duplo, atuando simultaneamente como pragas agrícolas e como agentes de controle biológico. Muitas espécies são fitófagas e podem causar danos consideráveis às plantas cultivadas, enquanto outras são predadoras e contribuem para o controle natural de organismos-praga.
Pesquisas recentes no Brasil registraram 168 espécies de mirídeos associadas a diversas plantas, com destaque para as famílias Poaceae, Asteraceae, Fabaceae e Solanaceae.
As mudanças nas práticas agrícolas têm impulsionado o aumento das populações de mirídeos, em função da expansão das áreas de plantio, das alterações climáticas e das mudanças no manejo do solo. A introdução de plantas exóticas também amplia a disponibilidade de hospedeiros, favorecendo a colonização por espécies nativas e exóticas.
Para além da taxonomia, é fundamental compreender as relações entre mirídeos e suas plantas hospedeiras e associadas, as preferências de habitat e a distribuição fitogeográfica das espécies, bem como avaliar seu papel como pragas ou agentes de controle biológico.
A interação entre percevejos Miridae e suas plantas hospedeiras e associadas, constitui uma promissora fronteira de pesquisa, com grande relevância para a ecologia, a agricultura e a conservação ambiental.
O uso desses insetos como bioindicadores pode auxiliar no monitoramento tanto da regeneração vegetal em áreas degradadas quanto dos danos causados por ações humanas em ecossistemas preservados.
A subfamília Bryocorinae ocupa o quarto lugar em tamanho dentro da família Miridae e reúne aproximadamente 200 gêneros (Henry, 2017).
A tribo Bryocorini, com cinco gêneros conhecidos, reúne espécies associadas exclusivamente a samambaias. Entre elas, destaca-se o gênero Monalocoris, o mais expressivo e comum, com 15 espécies distribuídas por todas as regiões zoogeográficas do planeta (Henry, 2017).
Predominantemente distribuída pelas Américas, a tribo Eccritotarsini caracteriza-se pelos grandes pulvilos discoides. Seu principal gênero, Eccritotarsus, compreende cerca de 90 espécies. A diferenciação entre essas espécies baseia-se principalmente na morfologia da genitália masculina e nos padrões de coloração dorsal dos adultos. Diversos Eccritotarsini provocam clorose e manchas foliares típicas em seus hospedeiros, tornando-se pragas potenciais de culturas agrícolas e plantas ornamentais. Entre os exemplos notáveis estão Tenthecoris, associado a orquídeas, e Pycnoderes quadrimaculatus, responsável por danos severos em feijoeiros e outras hortaliças (Henry, 2017).
A tribo Monaloniini inclui pragas agrícolas de grande impacto econômico, especialmente em cultivos de cacau. Nela se destaca o gênero Monalonion, cujas espécies são consideradas importantes pragas na América Latina. Além do cacaueiro, representantes desse gênero também foram observados causando prejuízos em abacate, café e eucalipto (Henry, 2017).
A tribo Dicyphini inclui o gênero Macrolophus, amplamente utilizado no controle biológico de moscas-brancas em cultivos protegidos na Europa. Diversos integrantes dessa tribo vivem associados a plantas com pelos glandulares, alimentando-se de presas que ficam retidas nas superfícies pegajosas dos vegetais (Henry, 2017).






Miridae • Referências essenciais
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Carvalho, J.C.M. & Froeschner, R.C. (1990) Taxonomic names proposed in the insect order Heteroptera by José Candido de Melo Carvalho from January 1985 to January 1989, with type depositories. Journal of the New York Entomological Society 98: 310–346.
Carvalho, J.C.M. & Froeschner, R.C. (1994) Taxonomic names proposed in the insect order Heteroptera by José Candido de Melo Carvalho from January 1989 to January 1993. Journal of the New York Entomological Society 102: 481–508.
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Ferreira, P.S.F., Silva, E.R. & Coelho, L.B.N. (2001) Miridae (Heteroptera) fitófagos e predadores de Minas Gerais, Brasil, com ênfase em espécies com potencial econômico. Iheringia, Série Zoologia, Porto Alegre 91: 159–169. DOI: 10.1590/S0073-47212001000200022
Grazia, J.; Takiya, D.M.; Wolff, V.R.S.; Schwertner, C.F.; Mejdalani, G.; Cavichioli, R.R.; Peronti, A.L.B.G.; Queiroz, D.L.; Burckhardt, D.; Fernandes, J.A.M.; Moreira, F.F.F.; Gil-Santana, H.R.; Ferreira, P.S.F.; Carrenho, R.; Brugnera, R.; Guidoti, M. (2024) Cap. 25, Hemiptera Linnaeus, 1758, pp. 368–456. In: Rafael, J.A.; Melo, G.A.R.; Carvalho, C.J.B. de; Casari, S. & Constantino, R. (eds), Insetos do Brasil: Diversidade e Taxonomia. 2ª ed. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus. 880 pp.
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