Miridae Brasil

Miridae no Brasil • Contexto

José Candido de Melo Carvalho Marco fundamental na taxonomia de Miridae na região Neotropical
Não se pode considerar os Miridae sem mencionar Carvalho: quase 500 artigos, cerca de 400 gêneros e mais de 2.100 espécies descritas.

Histórico

Base histórica
Não se pode considerar os Miridae sem mencionar José Candido de Melo Carvalho. Ele publicou a maioria dos trabalhos taxonômicos sobre os Miridae neotropicais em uma série extraordinária de quase 500 artigos ao longo de sua carreira, nos quais descreveu quase 400 gêneros e mais de 2.100 espécies. Carvalho e Froeschner (1987, 1990, 1994) listaram os gêneros e espécies descritos por Carvalho de 1943 a janeiro de 1993, juntamente com seus depositários de tipos.

Mesmo com o grande progresso alcançado nos estudos sobre os mirídeos desde o catálogo de Carvalho (1957–1960), ainda persistem amplas lacunas em taxonomia, sistemática, biologia e faunística, especialmente no que se refere à Região Neotropical (Ferreira, 1999).

Embora Carvalho tenha descrito inúmeros táxons em publicações científicas, a identificação dos Miridae da região neotropical ainda representa um grande desafio. Apesar dos avanços com chaves de gêneros neotropicais para Dicyphinae, Cylapinae e Bryocorinae, as subfamílias mais ricas em espécies ainda demandam revisões taxonômicas prévias para tornar viável a elaboração de novas chaves de identificação (Ferreira, 1999).

A taxonomia dos mirídeos no Brasil enfrenta dificuldades adicionais em razão da imensa diversidade de espécies contrastando com o número reduzido de especialistas, com a escassez de incentivos à formação de novos taxonomistas e com a carência de estudos aprofundados em várias regiões do país.

Um dos principais problemas para a identificação de espécies de mirídeos consiste na variabilidade intra e interespecífica de caracteres morfológicos. A grande diversidade de formas, tamanhos e comportamentos entre as espécies exige estudos detalhados, buscando primordialmente caracteres diagnósticos em estruturas das genitálias masculinas e femininas, além de coloração e morfologia externa.

Ferramentas essenciais para a taxonomia incluem a literatura especializada, as coleções entomológicas bem preservadas e catalogadas em instituições científicas, museus de história natural e universidades, assim como a ampliação contínua de seus acervos miridológicos.

A complexidade taxonômica dos mirídeos exige, portanto, um esforço contínuo e interdisciplinar que envolva o aprimoramento das técnicas de coleta, análise e catalogação, bem como investimentos em taxonomia morfológica, filogenia e tecnologias moleculares para oferecer um panorama mais preciso da biodiversidade de Miridae no Brasil.

Sucesso Ecológico

Diversidade & adaptação

Os mirídeos, conhecidos como “plant bugs” em inglês, pertencem a uma das 20 famílias mais diversas de insetos no mundo, sendo a maior dentro da ordem Hemiptera, com aproximadamente 11.139 espécies descritas.

O tamanho dos mirídeos oscila entre 1,5 mm, valor comum em espécies braquípteras de Bryocorinae, Orthotylinae e Phylinae, até pouco mais de 15 mm, como em certos Resteniini neotropicais da subfamília Mirinae. A maior parte das espécies apresenta entre 3 e 6 mm de comprimento, com corpo variando de alongado a oval, incluindo representantes mirmecomórficos.

Muitos mirídeos fitófagos exibem coloração vibrante, com vermelho, laranja e amarelo, frequentemente acompanhados por manchas e listras. Entretanto, a maioria apresenta tons mais discretos, como cinza, marrom ou preto, o que lhes confere excelente camuflagem no ambiente (Ferreira, 1999).

A família está distribuída em 44 tribos e ocorre nas principais regiões biogeográficas do planeta, com especial destaque para os trópicos e para ecossistemas mediterrâneos. Na região Neotropical, os mirídeos estão representados por 25 tribos, 561 gêneros e 3.429 espécies, correspondendo a cerca de 27% da miridofauna mundial.

Brasil em destaque
  • 1.108 espécies registradas
  • 7 subfamílias, 18 tribos e 288 gêneros
  • Potencial de aumento com revisões e novas amostragens
Ecologia e nichos
  • Maioria oligófaga; também há espécies monófagas
  • Fitófagos, micetófagos, zoofitófagos e onívoros
  • Alta abundância e ampla distribuição em diversos ecossistemas

Estima-se que, com estudos mais aprofundados na região Neotropical, a fauna de mirídeos possa alcançar cerca de 20.000 espécies. Em razão da pouca informação disponível sobre a bioecologia dos mirídeos tropicais, a história natural desse grupo ainda se fundamenta majoritariamente em espécies de regiões temperadas.

Estudos biogeográficos identificam centros de endemismo em uma grande variedade de habitats, refletindo a capacidade dessas espécies de se ajustarem a novas situações, desafios e mudanças, o que contribui para o êxito ecológico do grupo. Os mirídeos apresentam ainda grande potencial como bioindicadores de alterações ecológicas, sendo valiosos para ações de conservação e manejo ambiental.

Coleta e Estudo

Métodos de amostragem

As coletas de mirídeos têm sido tradicionalmente realizadas com o emprego de redes entomológicas de varredura e rede de batida (“beat net”), métodos amplamente utilizados para amostrar espécimes em diferentes estratos da vegetação.

A utilização de armadilhas luminosas do tipo “black-light”, pelo método de Ferreira & Martins (1982), favorece a coleta de espécies que ocupam ambientes menos acessíveis às redes, como as copas de árvores. Por isso, a conjugação entre esses métodos é recomendada para ampliar a representatividade das amostras.

O aperfeiçoamento das técnicas de coleta é parte fundamental do avanço taxonômico e faunístico do grupo, sobretudo em regiões ainda pouco amostradas.

Panorama Regional no Brasil

Distribuição do conhecimento

O conhecimento sobre a fauna de Miridae no território brasileiro permanece fragmentado e carece de investigações mais profundas em todas as regiões. As maiores lacunas de amostragem concentram-se especialmente nas regiões Norte e Nordeste, evidenciando a necessidade de novos levantamentos nessas áreas.

Regiões brasileiras
  • Norte: 09 gêneros e 248 espécies
  • Nordeste: 85 gêneros e 160 espécies
  • Centro-Oeste: 105 gêneros e 250 espécies
  • Sudeste: 185 gêneros e 579 espécies
  • Sul: 124 gêneros e 284 espécies
  • Dados compilados em Ferreira et al. 2026 – CTFB

Esse panorama evidencia o desequilíbrio do conhecimento taxonômico no país e reforça a importância de expandir inventários, coleções de referência e estudos sistemáticos em áreas das regiões brasileiras.

Importância Econômica

Pragas & controle biológico

Os mirídeos possuem um impacto econômico duplo, atuando simultaneamente como pragas agrícolas e como agentes de controle biológico. Muitas espécies são fitófagas e podem causar danos consideráveis às plantas cultivadas, enquanto outras são predadoras e contribuem para o controle natural de organismos-praga.

A predação por mirídeos é mais comum em ovos e nos primeiros ínstares de artrópodes. Essa dualidade exige o estudo detalhado das interações mirídeos × plantas e mirídeos × presas para subsidiar estratégias de manejo mais eficientes.

Pesquisas recentes no Brasil registraram 168 espécies de mirídeos associadas a diversas plantas, com destaque para as famílias Poaceae, Asteraceae, Fabaceae e Solanaceae.

As mudanças nas práticas agrícolas têm impulsionado o aumento das populações de mirídeos, em função da expansão das áreas de plantio, das alterações climáticas e das mudanças no manejo do solo. A introdução de plantas exóticas também amplia a disponibilidade de hospedeiros, favorecendo a colonização por espécies nativas e exóticas.

Perspectivas de Pesquisa

Hospedeiros, habitat e bioindicação

Para além da taxonomia, é fundamental compreender as relações entre mirídeos e suas plantas hospedeiras e associadas, as preferências de habitat e a distribuição fitogeográfica das espécies, bem como avaliar seu papel como pragas ou agentes de controle biológico.

A interação entre percevejos Miridae e suas plantas hospedeiras e associadas, constitui uma promissora fronteira de pesquisa, com grande relevância para a ecologia, a agricultura e a conservação ambiental.

O uso desses insetos como bioindicadores pode auxiliar no monitoramento tanto da regeneração vegetal em áreas degradadas quanto dos danos causados por ações humanas em ecossistemas preservados.

Bryocorinae e Tribos de Destaque

Diversidade e relevância aplicada

A subfamília Bryocorinae ocupa o quarto lugar em tamanho dentro da família Miridae e reúne aproximadamente 200 gêneros (Henry, 2017).

Bryocorini

A tribo Bryocorini, com cinco gêneros conhecidos, reúne espécies associadas exclusivamente a samambaias. Entre elas, destaca-se o gênero Monalocoris, o mais expressivo e comum, com 15 espécies distribuídas por todas as regiões zoogeográficas do planeta (Henry, 2017).

Eccritotarsini

Predominantemente distribuída pelas Américas, a tribo Eccritotarsini caracteriza-se pelos grandes pulvilos discoides. Seu principal gênero, Eccritotarsus, compreende cerca de 90 espécies. A diferenciação entre essas espécies baseia-se principalmente na morfologia da genitália masculina e nos padrões de coloração dorsal dos adultos. Diversos Eccritotarsini provocam clorose e manchas foliares típicas em seus hospedeiros, tornando-se pragas potenciais de culturas agrícolas e plantas ornamentais. Entre os exemplos notáveis estão Tenthecoris, associado a orquídeas, e Pycnoderes quadrimaculatus, responsável por danos severos em feijoeiros e outras hortaliças (Henry, 2017).

Monaloniini

A tribo Monaloniini inclui pragas agrícolas de grande impacto econômico, especialmente em cultivos de cacau. Nela se destaca o gênero Monalonion, cujas espécies são consideradas importantes pragas na América Latina. Além do cacaueiro, representantes desse gênero também foram observados causando prejuízos em abacate, café e eucalipto (Henry, 2017).

Dicyphini

A tribo Dicyphini inclui o gênero Macrolophus, amplamente utilizado no controle biológico de moscas-brancas em cultivos protegidos na Europa. Diversos integrantes dessa tribo vivem associados a plantas com pelos glandulares, alimentando-se de presas que ficam retidas nas superfícies pegajosas dos vegetais (Henry, 2017).

Literatura Recomendada

Miridae • Referências essenciais

Referências bibliográficas

Base de consulta
A seguir, estão reunidas algumas das principais referências para o estudo de Miridae, taxonomia, biodiversidade, importância econômica e catalogação da fauna.

Carvalho, J.C.M. & Froeschner, R.C. (1987) Taxonomic names proposed in the insect order Heteroptera by José Candido de Melo Carvalho from 1943 to January 1985, with type depositories. Journal of the New York Entomological Society 95: 121–224.

Carvalho, J.C.M. & Froeschner, R.C. (1990) Taxonomic names proposed in the insect order Heteroptera by José Candido de Melo Carvalho from January 1985 to January 1989, with type depositories. Journal of the New York Entomological Society 98: 310–346.

Carvalho, J.C.M. & Froeschner, R.C. (1994) Taxonomic names proposed in the insect order Heteroptera by José Candido de Melo Carvalho from January 1989 to January 1993. Journal of the New York Entomological Society 102: 481–508.

Ferreira, P.S.F., Henry, T.J. & Coelho, L.A. (2015) Plant Bugs (Miridae). In: Panizzi, A.R. & Grazia, J. (eds.), True Bugs (Heteroptera) of the Neotropics. Entomology in Focus 2, Springer Netherlands, 1 ed., vol. 2, 901 pp. DOI: 10.1007/978-94-017-9861-7

Ferreira, P.S.F., Henry, T. & Coelho, L.A. (2025) Miridae in Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil. Disponível em: http://fauna.jbrj.gov.br/fauna/faunadobrasil/14678

Ferreira, P.S.F., Silva, E.R. & Coelho, L.B.N. (2001) Miridae (Heteroptera) fitófagos e predadores de Minas Gerais, Brasil, com ênfase em espécies com potencial econômico. Iheringia, Série Zoologia, Porto Alegre 91: 159–169. DOI: 10.1590/S0073-47212001000200022

Grazia, J.; Takiya, D.M.; Wolff, V.R.S.; Schwertner, C.F.; Mejdalani, G.; Cavichioli, R.R.; Peronti, A.L.B.G.; Queiroz, D.L.; Burckhardt, D.; Fernandes, J.A.M.; Moreira, F.F.F.; Gil-Santana, H.R.; Ferreira, P.S.F.; Carrenho, R.; Brugnera, R.; Guidoti, M. (2024) Cap. 25, Hemiptera Linnaeus, 1758, pp. 368–456. In: Rafael, J.A.; Melo, G.A.R.; Carvalho, C.J.B. de; Casari, S. & Constantino, R. (eds), Insetos do Brasil: Diversidade e Taxonomia. 2ª ed. Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus. 880 pp.

Henry, T.J. (2017) Biodiversity of Heteroptera. In: Foottit, R.G. & Adler, P.H. (eds.), Insect Biodiversity: Science and Society, Vol. 1, Second Edition. John Wiley & Sons: 279–335.

Schaefer, C.W. & Panizzi, A.R. (eds.) (2000) Heteroptera of Economic Importance. CRC Press LLC, 829 p. ISBN 0-8493-0695-7.

Schuh, R.T. (2002–2013) On-line Systematic Catalog of Plant Bugs (Insecta: Heteroptera: Miridae). Available online at: http://research.amnh.org/pbi/catalog/

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